A Doença de Alzheimer (DA) é a patologia neurodegenerativa mais frequentemente associada a idade, cujas manifestações cognitivas e neuropsiquiátricas resultam em uma deficiência progressiva e uma eventual incapacitação. Em geral, o primeiro aspecto clínico na DA é a deficiência da memória recente, enquanto as lembranças remotas são preservadas até um certo estágio da doença. A incidência da DA vem crescendo mundialmente na mesma medida em que aumenta a população acima dos 65 anos. Atualmente afeta 10% dos indivíduos com idade superior a 65 anos e 40% acima de 80 anos. A previsão é que o número de doentes de Alzheimer chegue a 65,7 milhões em 2030 e a 115,4 milhões em 2050.

Alzheimer e Exercício Aeróbico

Ainda hoje, não existe um tratamento definitivo para curar ou reverter a deterioração do funcionamento cognitivo causado pela Doença de Alzheimer (DA) As intervenções farmacêuticas se mostram incapazes de reverter os efeitos da DA e devido à isto, grande ênfase deveria ser dada à prevenção e ao atraso do surgimento da doença. Uma meta-análise de 2009 (Hamer e Chida), já havia concluído que a atividade física reduziria o risco de se desenvolver a AD em 45% da população. Num estudo mais recente, que analisou somente pessoas acima de 65 anos, (Beckett; Ardern e Rotondi, 2015) os cientistas verificaram também que a atividade física está associada a um reduzido risco de se desenvolver a Doença de Alzheimer após esta idade. O estudo sugeriu que esta prevenção primária deveria ser considerada com grande ênfase, principalmente pelos indivíduos com história familiar da doença.

Mas qual tipo de exercício seria o mais interessante para a sua prevenção ou até para combater os principais sintomas? De acordo com pesquisadores (Paillard, Rolland e Barreto, 2015) não há consenso atualmente sobre o melhor regime de exercícios para melhorar as respostas clínicas de quem possui a Doença de Alzheimer. Entretanto, os autores desta revisão concordam que o exercício aeróbico seria muito indicado por ser prático e possível de ser feito pela maioria dos indivíduos, além de estar associado a uma função cognitiva melhor, o que já foi muito demonstrado em pesquisas com pessoas saudáveis e com Doença de Alzheimer. É importante lembrar que o exercício aeróbico, refere-se aquele que envolve o uso contínuo e rítmico de grandes grupos musculares por pelo menos 15 minutos, 3 ou mais vezes na semana e que eleva a frequência cardíaca pelo menos a 60% da frequência cardíaca de reserva (American College of Sports Medicine, 2010).

Em linhas gerais, tem sido observado que o exercício aeróbico estimula a expressão gênica dos fatores de crescimento do tecido nervoso que são importantes para a neurogênese, além da produção e função dos neurotransmissores e a sinaptogênese, especialmente no hipocampo, região onde a Doença de Alzheimer é severa. Há também aumento da vascularização e fluxo sanguíneo no córtex parietal, frontal e temporal. Em relação às características comportamentais estudos verificaram que idosos que foram submetidos ao exercício aeróbico tiveram um resultado significativo na diminuição de conflitos durante tarefas cognitivas mais complexas e melhoria na memória e na comunicação. Todas estas alterações tanto estruturais quanto comportamentais podem levar a uma melhora da função cognitiva das pessoas que apresentam DA.
Para exemplificar, abaixo são apresentados alguns estudos que utilizaram os exercícios aeróbicos como intervenção específica e identificaram mudanças comportamentais em idosos com a Doença de Alzheimer.

1. Fridman e Tappei (1991) – observaram que o grupo que fazia caminhada durante 30 min por 3x/semana associada à conversação apresentou melhora significativa na comunicação (linguagem) em relação ao grupo que só fazia conversação.
2. Palleschi et al (1996) – observaram que 20 min de exercícios no cicloergômetro com 70% de FCmáx pode melhorar o desempenho na atenção e função cognitiva global.
3. Rolland et al (2000) – verificou que 35 min de exercícios de resistência (caminhada e bicicleta) durante 7 semanas pode melhorar das funções cognitivas
4. Cott et al (2002) – verificaram que o grupo que fazia caminhada 30 min 5x/ semana por 16 semanas associada à conversação, apresentou melhora significativa na comunicação (linguagem) em relação ao grupo controle e ao grupo que fazia só conversação.

Assim, parece bastante claro que o exercício aeróbico é importante fator de prevenção e pode ser considerado como tratamento naqueles indivíduos que já possuem a Doença de Alzheimer. Estudos ainda precisam ser realizados para se identificar características do treinamento aeróbico como volume e intensidades ideais, mas o mais importante é permitir que a população idosa se beneficie deste conhecimento e inicie sua prática física o quanto antes.

Referências Bibliográficas

American College of Sports Medicine. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription. 8th ed. Philadelphia (PA): Lippincott Williams & Wilkins; 2010. p. 366.

Beckett MW, Ardern CI, Rotondi MA. A meta-analysis of prospective studies on the role of physical activity and the prevention of Alzheimer’s disease in older adults. BMC Geriatr. 2015 Feb 11;15:9

Cott CA, Dawson P, Sidani S, Wells D. The effects of a walking/ talking program on communication, ambulation, and functional status in residents with Alzheimer. Alzheimer Dis Assoc Disord.2002;16(2):81-7.

Friedman R, Tappen RM. The effect of planned walking on communication in Alzheimer’s disease. J Am Geriatr Soc.1991;39(7):650-4.

Hamer M, Chida Y. Physical activity and risk of neurodegenerative disease: a systematic review of prospective evidence. Psychol Med 2009; 39:3-11.

Paillard T, Rolland Y, de Souto Barreto P. Protective Effects of Physical Exercise in Alzheimer’s Disease and Parkinson’s Disease: A Narrative Review J Clin Neurol. 2015 Jul;11(3):212-9

Palleschi L, Vetta F, Genaro E, Idone G, Sottosanti G, Gianni W, Marigliano V. Effect of aerobic training on the cognitive performance of elderly patients with senile dementia of Alzheimer Type. Arch Gerontol Geriatr. 1996;(Supl 5):47-50.

Rolland Y, Rival L, Pillard F, Lafont C, Rivére D, Albaréde J, Vellas B. Feasibily of regular physical exercise for patients with moderate to severe Alzheimer disease. J Nutr Health Aging. 2000;4(2):109- 13

Por Maria Claudia Vanicola e Patricia Piccin